A indústria audiovisual americana está passando por uma mudança de postura em relação à inteligência artificial. Depois de anos de resistência, grandes estúdios, produtoras independentes e plataformas de streaming têm fechado parcerias e investido pesado em startups de IA voltadas para cinema e televisão. O movimento marca uma nova fase para o setor, que historicamente tratou a tecnologia com desconfiança, seja por questões de direitos autorais, seja pelo temor de artistas de serem substituídos por versões sintéticas de si mesmos.
Essa guinada não significa, porém, que Hollywood esteja disposta a abandonar sua identidade criativa. Estúdios e diretores frisam que a IA está sendo incorporada como ferramenta de suporte à produção, e não como substituta do trabalho humano diante das câmeras.
Netflix, Lionsgate e Google lideram onda de investimentos em IA para cinema
O símbolo mais evidente dessa transformação foi a aquisição, em março, da InterPositive pela Netflix, por cerca de US$ 587 milhões (aproximadamente R$ 3 bilhões). A empresa, fundada em 2022 pelo ator e diretor Ben Affleck, tem menos de 20 funcionários e atua no desenvolvimento de ferramentas de IA para apoiar processos de produção audiovisual, muito antes de a aquisição repercutir, ela já era pouco conhecida fora do círculo profissional do cinema.
O movimento não ficou isolado. Em junho, a Lionsgate adquiriu participação na Runway, uma das empresas mais reconhecidas em geração de vídeo por IA, com planos de desenvolver projetos criativos conjuntos. Dias depois, o Google fez movimento semelhante ao investir na produtora independente A24, conhecida por filmes autorais premiados.
Segundo executivos do setor, o ponto de virada não foi apenas tecnológico. Jamie Umpherson, diretor de criação da Runway, avalia que o avanço recente está menos ligado a saltos absolutos na maturidade da tecnologia e mais à capacidade crescente de profissionais em usar essas ferramentas de forma mais sofisticada dentro do fluxo de produção.
Já Ted Sarandos, codiretor-executivo da Netflix, afirmou durante a divulgação de resultados da empresa em julho que o uso de IA tem permitido produzir conteúdo com mais qualidade, rapidez e eficiência em comparação a métodos tradicionais. Como exemplo, ele citou a série documental The American Experiment, na qual mais de 17 minutos de conteúdo foram retrabalhados com apoio de IA, incluindo a inserção de personagens sintéticos.
Do “vale da estranheza” ao cinema híbrido: o que mudou na tecnologia
Até pouco tempo atrás, vídeos gerados por inteligência artificial sofriam com limitações visuais evidentes: mãos com número errado de dedos, movimentos faciais pouco naturais e falhas que denunciavam imediatamente a origem sintética do conteúdo. Esse cenário vem mudando rapidamente. Peças publicitárias e curtas-metragens recentes mostraram personagens humanos gerados por IA com um nível de realismo que, segundo a própria Runway, torna a tecnologia praticamente imperceptível quando a narrativa é bem construída.
Um dos desenvolvimentos mais relevantes é o que o diretor e produtor Jon Erwin chama de “cinema híbrido” ou “não linear”. Sua produtora, a Wonder Project, criou em abril uma joint venture chamada Innovative Dreams com a Luma, concorrente direta da Runway. A parceria desenvolveu um método que permite gravar atores de forma natural, sem uso de chroma key ou figurinos especiais, para depois inseri-los em ambientes totalmente gerados por IA.
A composição final pode ficar pronta poucos minutos após a gravação, o que permite à equipe avaliar o resultado quase em tempo real e refazer cenas imediatamente, caso necessário. Segundo Erwin, essa abordagem preserva o essencial do processo cinematográfico: a relação entre ator, diretor e câmera em um ambiente colaborativo, ampliando apenas a dimensão visual dos cenários.
O primeiro longa-metragem a utilizar essa arquitetura, Young Washington, já arrecadou mais de US$ 40 milhões nas bilheterias, o dobro do custo de produção do filme, que conta com o ator vencedor do Oscar Ben Kingsley no elenco.
Impactos para estúdios, profissionais do audiovisual e consumidores
A adoção crescente de IA no audiovisual traz implicações diretas para diferentes públicos:
Para os estúdios, o principal atrativo é a redução de custos e prazos de produção, especialmente em etapas como visualização de conceitos, ampliação de cenários e correção de cor. Isso pode tornar viáveis produções que antes exigiriam orçamentos muito maiores.
Para profissionais do setor, técnicos, operadores de câmera e atores, o cenário é mais complexo. Embora essas funções continuem sendo necessárias no novo modelo de produção, ainda há debate sobre o volume de profissionais que será demandado no longo prazo. O ator Matt Damon, ao comentar a produção de Odisseia, de Christopher Nolan, rodada em três continentes com métodos tradicionais, declarou publicamente duvidar que estúdios continuem destinando recursos para produções filmadas dessa maneira por muito mais tempo.
Para o consumidor final, a tendência é de acesso a produções com efeitos visuais mais sofisticados e, potencialmente, lançamentos mais frequentes, à medida que os custos de produção caiam. Ainda não está claro, porém, como o público vai reagir à disseminação de personagens e cenários sintéticos em produções de grande escala.
O que esperar dos grandes estúdios tradicionais daqui para frente
Até o momento, os cinco grandes pilares históricos de Hollywood, Paramount, Universal, Sony, Walt Disney e Warner Bros., mantiveram-se oficialmente afastados dessa onda de parcerias com startups de IA, ao menos publicamente.
Segundo Tanya Porquez, diretora da Generated Group, empresa que lançou recentemente a GeneratedDB, uma base de dados voltada à criação de vídeos com IA, essa postura tende a mudar. Para ela, a adoção não será necessariamente motivada por entusiasmo com a tecnologia, mas pela dificuldade de ignorar as economias de escala que a IA proporciona frente à concorrência.
Esse cenário sugere que os próximos meses devem trazer novos anúncios de parcerias, aquisições e investimentos, tanto de estúdios tradicionais quanto de plataformas de streaming, à medida que a pressão competitiva aumenta.
Créditos
Fonte de referência: O Globo
Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.
Assinatura: Redação Brasil Tech News







