A Apple voltou, nesta sexta-feira, à posição de companhia mais valiosa do planeta, ultrapassando a Nvidia após um dia de forte queda nas ações do setor de semicondutores. Os papéis da fabricante do iPhone tiveram alta de 0,4%, levando seu valor de mercado a US$ 4,9 trilhões, enquanto a Nvidia recuou 3,7%, com sua avaliação caindo para US$ 4,8 trilhões. A troca de liderança encerra um ciclo iniciado em maio de 2025, quando a fabricante de chips havia assumido o topo do ranking global de valor de mercado.
O movimento reflete uma mudança mais ampla de postura entre investidores, que vêm reduzindo exposição a empresas fortemente associadas ao ciclo de investimentos em inteligência artificial e migrando recursos para companhias vistas como menos expostas a esse risco.
Por que a Apple voltou ao topo do valor de mercado
A retomada da liderança pela Apple não é um evento isolado, mas o resultado de uma valorização consistente nos últimos meses. Desde a mínima registrada em junho, as ações da empresa acumulam alta de 21%. No acumulado de 2026, o avanço chega a 23%, o melhor desempenho entre as chamadas “Magnificent Seven”, grupo que reúne as sete maiores empresas de tecnologia negociadas em bolsa nos Estados Unidos.
Para efeito de comparação, o índice Nasdaq 100, concentrado em papéis de tecnologia, subiu 12% no mesmo intervalo, enquanto o S&P 500 avançou 8,6%. Ou seja, a Apple cresceu bem acima da média do mercado.
Dois fatores específicos ajudam a explicar esse desempenho. O primeiro é a rotação de carteiras: parte do capital que estava concentrado em fabricantes de chips e empresas de infraestrutura de IA passou a buscar ativos considerados mais estáveis, e a Apple se beneficiou dessa migração. O segundo é regulatório: a empresa recebeu recentemente autorização do governo chinês para lançar o Apple Intelligence no mercado chinês, uma liberação aguardada havia meses e que deve impulsionar as vendas de iPhones no país.
O banco HSBC elevou a recomendação para as ações da Apple, de manutenção para compra. Segundo o analista Nicolas Cote-Colisson, a empresa estaria em um momento de inflexão operacional, menos exposta ao debate sobre gastos excessivos em capex de IA e bem posicionada para monetizar sua base instalada de 2,5 bilhões de dispositivos ativos com a atualização do Apple Intelligence.
Contexto: a correção nas ações de semicondutores
O outro lado dessa história é a forte correção enfrentada pelo setor de chips. O Philadelphia Semiconductor Index, o SOX, caiu 4,8% na sexta-feira, acumulando queda superior a 20% em relação ao recorde histórico atingido no fim de junho, patamar que caracteriza tecnicamente um mercado de baixa (bear market).
O gatilho mais recente para essa queda foi o avanço da startup chinesa Moonshot, que anunciou um novo modelo de inteligência artificial, o Kimi K3, apresentado como capaz de rivalizar com as soluções mais avançadas da OpenAI e da Anthropic. Como essas empresas dependem fortemente de chips da Nvidia para treinar seus modelos, o anúncio reacendeu temores sobre a real necessidade de investimentos bilionários em infraestrutura de IA, um receio que o mercado já havia vivido no ano passado com a ascensão da DeepSeek.
Um índice da Bloomberg que acompanha semicondutores na Ásia caiu mais de 6% no mesmo pregão, reforçando que o movimento não ficou restrito ao mercado americano.
A correção não se limitou à Nvidia. Marvell Technology, ARM Holdings e Intel acumulam perdas superiores a 30% desde os picos recentes. No segmento de memória, que vinha sendo um dos destaques do ano, Micron Technology recua 33% em relação ao topo, enquanto Western Digital e Sandisk caem mais de 40%. Mesmo a Samsung Electronics, que reportou um salto de 19 vezes no lucro trimestral, viu suas ações cederem, já que os resultados não superaram uma valorização acumulada de 150% no início do ano. A taiwanesa TSMC, principal fornecedora de chips da Nvidia, também recuou mais de 7% na semana, mesmo após elevar suas projeções de receita e investimento.
Impactos para empresas, investidores e o setor de tecnologia
Para a Apple, a retomada da liderança em valor de mercado tem valor simbólico e estratégico. Ela sinaliza aos investidores que o modelo de negócio da empresa, baseado em hardware, serviços e um ecossistema fechado, ainda é percebido como resiliente em cenários de maior aversão a risco. A liberação para operar o Apple Intelligence na China também pode se traduzir em ganhos concretos de receita nos próximos trimestres, especialmente em um mercado onde a empresa vinha perdendo espaço para concorrentes locais.
Já para as fabricantes de chips, o momento exige cautela. Empresas como Nvidia, TSMC e os fabricantes de memória seguem com fundamentos operacionais sólidos, o próprio índice SOX ainda acumula alta de cerca de 60% em 2026, mas o mercado passou a questionar se as avaliações subiram rápido demais frente à real velocidade de adoção da inteligência artificial generativa em escala.
Para profissionais do setor de tecnologia e investidores individuais, o episódio reforça a importância de acompanhar de perto não apenas o desempenho das big techs americanas, mas também o avanço de modelos de IA desenvolvidos na China, que têm se mostrado capazes de competir tecnicamente com soluções ocidentais a um custo menor, fator que pode pressionar margens e premissas de investimento em toda a cadeia de semicondutores.
Para o consumidor final, o principal desdobramento a observar é indireto: uma Apple mais forte financeiramente e com aval regulatório na China tende a acelerar o cronograma de melhorias do Apple Intelligence, o que pode significar novidades mais rápidas em recursos de inteligência artificial nos próximos lançamentos de iPhone e demais produtos da marca.
O que esperar daqui para frente no mercado de IA e chips
Analistas de mercado seguem majoritariamente otimistas com o setor de semicondutores no médio prazo. Segundo o consenso de projeções de preço-alvo para as 30 empresas que compõem o índice SOX, há espaço estimado de valorização de cerca de 38% nos próximos 12 meses, mesmo após a correção recente.
Ainda assim, alguns pontos devem seguir no radar de investidores e do mercado de tecnologia como um todo:
- O desempenho comercial do Apple Intelligence na China após a liberação regulatória;
- A evolução da demanda por chips de memória frente à oferta, um dos principais gargalos apontados por analistas;
- A sustentabilidade dos gastos bilionários em capex por parte das chamadas hyperscalers, empresas de nuvem e IA que vêm investindo trilhões de dólares em data centers;
- O ritmo de expansão de modelos de IA desenvolvidos por empresas chinesas, como Moonshot, e o efeito disso sobre a percepção de custo-benefício dos investimentos em infraestrutura ocidental.
Esse cenário deve manter a volatilidade elevada entre as ações de tecnologia nos próximos meses, com o mercado alternando entre otimismo com o potencial de longo prazo da inteligência artificial e cautela em relação ao ritmo e ao custo desses investimentos.
Créditos
Fonte de referência: O Globo
Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.
Assinatura: Redação Brasil Tech News