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UE aponta violação da DSA pela Meta e cobra fim de recursos “viciantes” no Instagram e Facebook

A Comissão Europeia informou, na última sexta-feira (10/07), ter concluído de forma preliminar que a Meta descumpre a Lei de Serviços Digitais (Digital Services Act, ou DSA) por conta do que classificou como “design viciante” no Instagram e no Facebook. Segundo o órgão regulador do bloco, recursos como rolagem infinita, reprodução automática de vídeos, notificações push e sistemas de recomendação altamente personalizados estariam sendo usados para prender a atenção dos usuários além do razoável, com efeitos especialmente preocupantes sobre crianças e adolescentes.

A decisão ainda não é definitiva. Trata-se de uma conclusão preliminar dentro de uma investigação aberta em maio de 2024, e a Meta terá agora a oportunidade de acessar os documentos do processo e apresentar defesa por escrito antes que Bruxelas emita uma decisão final. Caso a violação seja confirmada, a empresa pode ser multada em até 6% do seu faturamento global anual, valor que, com base nos resultados recentes da companhia, chegaria à casa de bilhões de dólares.

O que a Comissão Europeia encontrou no design do Instagram e do Facebook

De acordo com o comunicado da Comissão, a investigação identificou que a Meta não avaliou nem mitigou de forma adequada os riscos gerados por funcionalidades de engajamento contínuo nas duas redes sociais. O órgão argumenta que ferramentas como rolagem infinita e reprodução automática colocam o usuário em uma espécie de “piloto automático“, incentivando o consumo compulsivo de conteúdo.

A Comissão também questionou a eficácia das ferramentas de controle de tempo de uso oferecidas pela própria Meta, inclusive as voltadas a adolescentes. Segundo o regulador, esses recursos podem ser facilmente ignorados e não resultam em redução significativa do tempo de tela. Os controles parentais, por sua vez, foram descritos como pouco práticos, já que exigiriam conhecimento técnico e dedicação considerável por parte dos responsáveis para funcionar de forma efetiva.

Henna Virkkunen, vice-presidente executiva da Comissão para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, declarou que proteger a saúde física e mental dos cidadãos europeus precisa ser prioridade para as plataformas de redes sociais, e que a DSA oferece uma base legal clara para responsabilizar empresas por design viciante e pelos efeitos de seus serviços sobre os usuários.

Em resposta, a Meta afirmou discordar das conclusões preliminares. Um porta-voz da empresa disse que a avaliação da Comissão não leva em conta de forma adequada as medidas já adotadas para proteger adolescentes, citando as contas específicas para adolescentes, que permitem aos pais bloquear o acesso ao Instagram durante a noite e definir limites diários de uso.

Contexto: a escalada regulatória da UE contra as big techs

A ação contra a Meta não é um caso isolado. Ela se insere em uma sequência de medidas da Comissão Europeia para forçar grandes plataformas digitais a se adequarem à DSA, legislação que impõe obrigações de transparência, gestão de riscos e proteção ao usuário para os chamados “grandes provedores de plataformas online”, categoria que inclui redes sociais com dezenas de milhões de usuários no bloco europeu.

O TikTok já havia recebido um alerta semelhante em fevereiro, por conta de recursos de design considerados igualmente viciantes, processo que segue em andamento. Em abril, a própria Meta foi notificada por outro motivo: falhas nos mecanismos de verificação de idade que permitiam o acesso de crianças menores de 13 anos ao Instagram e ao Facebook.

A DSA também já resultou em punições concretas a outras empresas. A rede social X, de Elon Musk, recebeu multa de 120 milhões de euros em dezembro, enquanto o marketplace chinês Temu foi penalizado em 200 milhões de euros em maio, ambos por descumprimento de obrigações da mesma legislação. O caso da Meta, no entanto, se destaca por mirar diretamente o design do produto, e não apenas práticas de moderação de conteúdo ou transparência publicitária, o que representa um tipo de intervenção regulatória mais raro e potencialmente mais disruptivo para o modelo de negócio das plataformas.

O tema também ganha força fora da esfera regulatória. Em março, a Meta foi considerada responsável em um processo judicial nos Estados Unidos que concluiu que o Instagram foi projetado para gerar dependência em usuários menores de idade. Paralelamente, cresce o número de países que restringem ou avaliam restringir o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, seguindo o modelo adotado pela Austrália, movimento que a própria Comissão Europeia estuda replicar no bloco.

Impactos para empresas de tecnologia, profissionais do setor e usuários

Para a Meta, o risco imediato é financeiro: uma multa de 6% do faturamento global representaria um dos maiores valores já aplicados sob a DSA. Mas o impacto estratégico pode ser ainda mais relevante. Caso a decisão seja confirmada, a empresa pode ser obrigada a redesenhar funcionalidades centrais do Instagram e do Facebook, como a forma como o feed é apresentado e como os vídeos curtos são reproduzidos, o que afeta diretamente métricas de engajamento historicamente usadas para atrair anunciantes.

Esse cenário acende um alerta para outras plataformas com modelo de negócio baseado em tempo de tela e engajamento contínuo, como o próprio TikTok, YouTube e serviços de streaming de vídeos curtos. Empresas do setor de tecnologia que operam na Europa devem observar de perto o desfecho do caso, já que ele pode se tornar um precedente prático sobre até onde vai a autonomia das plataformas para definir a experiência do usuário.

Para profissionais de produto, UX e crescimento (growth) que atuam com redes sociais e aplicativos de consumo, a sinalização é clara: métricas de engajamento baseadas em gatilhos comportamentais, como rolagem infinita e autoplay, passam a representar risco regulatório, não apenas risco reputacional. Isso tende a impulsionar a demanda por especialistas em design ético e em conformidade com a DSA dentro das equipes de produto.

Já para os usuários, sobretudo famílias com filhos adolescentes, a expectativa é de que, em caso de decisão desfavorável à Meta, o uso do Instagram e do Facebook passe por mudanças perceptíveis, como pausas automáticas mais rígidas, fim ou limitação do autoplay e ajustes no algoritmo de recomendação para reduzir a ênfase em conteúdo de alto engajamento.

Próximos passos: o que esperar do processo contra a Meta

O processo segue em fase de defesa. A Meta poderá contestar as conclusões preliminares antes de qualquer decisão definitiva da Comissão Europeia, e não há prazo público divulgado para o desfecho. Enquanto isso, a investigação mais ampla contra a empresa continua avaliando outras frentes, como os mecanismos de verificação de idade e os chamados “efeitos em cascata” dos sistemas de recomendação, quando um conteúdo consumido leva a uma sequência de recomendações cada vez mais direcionadas.

Paralelamente, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve apresentar em breve os resultados de um painel de especialistas sobre segurança infantil no ambiente digital, em meio à pressão crescente de países europeus por regras mais duras, incluindo possíveis restrições de acesso de menores a redes sociais em todo o bloco.

Se confirmada, a decisão contra a Meta pode se tornar um marco regulatório: a primeira grande imposição de mudanças estruturais de design a uma rede social sob a DSA, com potencial de influenciar debates semelhantes em outras jurisdições, incluindo o Brasil, onde a discussão sobre regulação de plataformas digitais e proteção de menores também avança no Congresso Nacional.

Créditos

Fonte de referência: O Globo

Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.

Assinatura: Redação Brasil Tech News

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