EUA e China disputam aliados na corrida pela liderança em inteligência artificial

A disputa pela hegemonia em IA ganhou um novo capítulo nas últimas semanas. Enquanto os Estados Unidos consolidam parcerias comerciais para garantir cadeias de suprimento de chips e modelos de ponta, a China acelerou o lançamento de sistemas de inteligência artificial competitivos e criou uma organização internacional para coordenar países alinhados ao seu modelo de desenvolvimento tecnológico. O resultado é um cenário que lembra, guardadas as proporções, a disputa de blocos geopolíticos vivida no século passado, mas agora com dados, chips e modelos de linguagem no centro do tabuleiro.

Europa, Japão, Brasil e Índia, apesar de relevantes em população, mercado e recursos, seguem em posição secundária no desenvolvimento desses sistemas. Isso faz com que as duas maiores economias do mundo intensifiquem esforços para atrair esses países para suas respectivas esferas de influência tecnológica, usando abordagens comerciais e diplomáticas bastante distintas.

O que motivou a disputa por hegemonia em IA entre EUA e China

Nas últimas semanas, quatro modelos chineses de inteligência artificial passaram a ser vistos como concorrentes diretos dos sistemas americanos mais avançados. GLM 5.2, Kimi K3 e Qwen 3.8 Max apresentam desempenho equivalente, em alguns casos superior, a modelos como Fable 5, da Anthropic, e GPT 5.6 Sol, da OpenAI, em diversas tarefas.

Já o DeepSeek V4 Flash se tornou símbolo de uma disputa paralela: a de custo. Sem descontos, o modelo cobra US$ 0,17 por milhão de tokens processados, enquanto o Fable 5 chega a cobrar US$ 18 pelo mesmo volume, uma diferença superior a cem vezes.

Esse avanço técnico e comercial chinês reforçou, aos olhos de analistas, que a corrida pela liderança em inteligência artificial deixou de ser unipolar. A resposta dos dois países, no entanto, segue lógicas opostas de expansão de influência.

Contexto: como EUA e China constroem suas esferas de influência tecnológica

O modelo americano se apoia em um ecossistema consolidado há décadas nos setores de informática e telecomunicações, combinando investimento privado robusto, atração de talentos e controle sobre a produção de hardware avançado. Os sistemas desenvolvidos no Vale do Silício costumam ser fechados, protegidos como segredo comercial, o que sustenta contratos de exclusividade de longo prazo envolvendo manutenção, atualizações e fornecimento de equipamentos.

Segundo Gustavo Macedo, professor do Insper, essa é uma estratégia típica de quem já detém um mercado consolidado, com cláusulas contratuais que reforçam a dependência dos países parceiros. Essa abordagem, chamada por especialistas de full stack, integra chips, serviços em nuvem e modelos de ponta em pacotes fechados.

O ápice institucional dessa estratégia é o Pax Silica, iniciativa lançada pelo Departamento de Estado dos EUA no fim de 2025 para garantir cadeias seguras de IA, semicondutores e minerais críticos. O bloco reúne 35 países, incluindo Reino Unido e Japão, que aceitam alinhar suas cadeias produtivas e delegar parte da gestão de infraestrutura a empresas americanas, sem assumir obrigações jurídicas formais.

Já a estratégia chinesa segue uma lógica de eficiência e difusão. Desde o Plano de Desenvolvimento da Inteligência Artificial de Nova Geração, de 2017, Pequim vem priorizando aplicações práticas da tecnologia em setores como indústria, serviços e saúde, em vez de perseguir modelos com cognição próxima da humana tratados como segredo industrial.

Diante da escassez de chips avançados, empresas chinesas desenvolveram técnicas de otimização como mixture-of-experts, mecanismos de atenção esparsa e quantização de 4 bits, recursos que ampliam a eficiência computacional. Nos Estados Unidos, parte dessas técnicas é descrita como prática de “destilação”, processo em que respostas de um modelo são usadas para treinar outro sistema, gerando disputas sobre propriedade intelectual.

A China também tem investido pesadamente em modelos de peso aberto, permitindo que empresas, governos e desenvolvedores baixem, modifiquem e implementem os sistemas em servidores próprios. De acordo com William Guey, pesquisador de IA na Universidade Tsinghua, essa abordagem acelera o desenvolvimento local, já que o código aberto funciona como base para parcerias de infraestrutura.

Um relatório do governo americano divulgado em março deste ano reconheceu o avanço dessa estratégia: o número de modelos abertos chineses saltou de 32, em 2022, para 337, em 2025. O mesmo documento apontou que 80% das startups americanas usavam modelos chineses no ano passado, proporção que deve ter crescido diante do aumento nos custos por token dos sistemas dos EUA.

Como contraponto diplomático ao Pax Silica, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), em cerimônia em Xangai que contou com a presença do secretário-geral da ONU, António Guterres. A iniciativa já reúne 29 países, entre eles Rússia, Indonésia, África do Sul, Cuba e Venezuela, mas ainda carece da adesão de economias emergentes relevantes, como Índia, México e Coreia do Sul.

Impactos para empresas, profissionais e usuários de tecnologia

A diferença de preço entre modelos chineses e americanos já afeta diretamente decisões de negócio. Empresas que dependem de infraestrutura de IA em larga escala tendem a considerar sistemas mais baratos para operações que exigem alto volume de processamento, o que pode acelerar a adoção de modelos chineses em mercados sensíveis a custo, inclusive no Brasil.

Para desenvolvedores e profissionais de tecnologia, a multiplicação de modelos de peso aberto amplia as opções de customização e reduz a dependência de um único fornecedor, mas também exige atenção redobrada a questões de segurança, governança de dados e conformidade regulatória, especialmente diante de acusações recíprocas de espionagem e uso indevido de propriedade intelectual entre os dois países.

Já para empresas que priorizam previsibilidade contratual, suporte de longo prazo e acesso a hardware de ponta, a oferta americana, mais cara, porém mais estruturada, continua sendo relevante, sobretudo em setores regulados como financeiro, saúde e defesa.

Do lado do consumidor final, a concorrência entre os dois blocos tende a pressionar preços de serviços baseados em IA generativa, beneficiando aplicações que dependem de custo por token mais baixo, como assistentes virtuais, ferramentas de produtividade e chatbots corporativos.

O papel do Brasil no tabuleiro geopolítico da inteligência artificial

O Brasil é um dos países fundadores da iniciativa chinesa, mas ainda não se tornou Estado-membro efetivo da Waico. O governo do presidente Lula tem adotado postura de não alinhamento, participando simultaneamente de fóruns como ONU, OCDE, Parceria Global em IA, Grupo de Amigos do Processo de IA de Hiroshima e as Cúpulas Globais de Segurança em IA.

Segundo o ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, o Brasil busca preservar autonomia para cooperar com diferentes parceiros, com preferência por modelos de código aberto pautados por transparência e disseminação de conhecimento.

Já o embaixador Eugênio Vargas Garcia, responsável pela pauta de IA no Itamaraty, descreve o Brasil como um “país ponte”, presente em múltiplos fóruns simultaneamente, citando como exemplo o acordo de compra dos caças Gripen, da Suécia, que inclui transferência de tecnologia e fabricação local em parceria com a Embraer, modelo que o país pretende replicar em outras áreas estratégicas.

Atualmente, apenas o Cazaquistão integra tanto o Pax Silica quanto a Waico simultaneamente. Para Gustavo Macedo, do Insper, o Brasil reúne as quatro dimensões críticas da era da IA (dados, recursos naturais, energia e força de trabalho), o que torna sua posição estratégica, mas também mais complexa diante das pressões de ambos os blocos.

Tendências e próximos movimentos na disputa por hegemonia em IA

A expectativa entre analistas é de que a disputa entre os dois blocos se intensifique à medida que a China avançar rumo à autonomia na produção de chips, reduzindo sua dependência de fornecedores externos. Esse cenário deve reconfigurar ainda mais as alianças em torno da infraestrutura de inteligência artificial, pressionando países como Brasil, Índia e nações do Sudeste Asiático a definir posicionamentos mais claros, ou a consolidar, de fato, uma postura de não alinhamento.

Também é esperado que o custo por token continue sendo um fator decisivo na adoção corporativa de modelos de IA, o que pode acelerar ainda mais a penetração de sistemas chineses em mercados emergentes, ao mesmo tempo em que empresas americanas buscam formas de reduzir preços sem abrir mão de seu modelo de negócio baseado em exclusividade tecnológica.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é a Waico?

A Organização Internacional de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico) é uma iniciativa liderada pela China para promover governança global em IA, reunindo 29 países como alternativa diplomática ao modelo americano.

O que é o Pax Silica?

É uma iniciativa liderada pelos Estados Unidos, lançada no fim de 2025, que reúne 35 países para garantir cadeias de suprimento seguras de IA, semicondutores e minerais críticos, sob coordenação de empresas americanas.

O Brasil está alinhado com os EUA ou com a China em IA?

O Brasil mantém postura de não alinhamento, participando de fóruns ligados a ambos os países e priorizando parcerias que envolvam transferência de tecnologia, sem integrar formalmente nenhum dos dois blocos.

Por que EUA e China disputam aliados na área de inteligência artificial?

Porque ambos os países buscam expandir sua influência tecnológica e comercial sobre nações que ainda não têm protagonismo no desenvolvimento de IA, garantindo acesso privilegiado a chips, modelos e infraestrutura.

Créditos

Fonte de referência: O Globo

Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.

Assinatura: Redação Brasil Tech News

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