IA move o tráfego de dados no Brasil e pressiona teles a repensar suas redes

A ascensão de ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa está mudando um padrão que se manteve praticamente estável por duas décadas nas redes de telecomunicações: a direção predominante do tráfego de dados. Até recentemente, a maior parte da demanda das redes vinha do consumo de conteúdo (vídeos em streaming, downloads de arquivos, atualizações de aplicativos), com a informação fluindo do data center até o dispositivo do usuário. Com a popularização de assistentes de IA como ChatGPT e Gemini, esse fluxo começou a se inverter, já que grande parte da interação com esses sistemas depende do envio constante de dados do usuário para a nuvem, onde os modelos processam comandos e geram respostas em tempo real.

Um levantamento da consultoria americana Ookla aponta que o Brasil está entre os países menos preparados para essa nova dinâmica de tráfego. Segundo o estudo, apenas 5,74% da capacidade das redes móveis brasileiras está reservada ao uplink, o envio de dados do usuário para a internet, um percentual bem abaixo de nações como Indonésia, Alemanha, Tailândia, Suécia e Noruega, que dedicam quase 24% de sua capacidade de rede a esse tipo de tráfego. A discrepância acende um alerta para operadoras, reguladores e para o próprio ecossistema de IA que se forma no país.

Por que a inteligência artificial está mudando a lógica das redes de telecomunicações

O motivo por trás dessa inversão é estrutural. Quando um usuário pede a um assistente de IA que gere uma imagem, resuma um texto ou responda a um comando de voz, o processamento pesado não acontece no aparelho, mas em servidores na nuvem. Isso significa que o celular ou computador precisa enviar dados constantemente, e não apenas recebê-los, o oposto do que ocorria quando o principal uso da internet móvel era assistir a vídeos ou baixar arquivos.

As projeções indicam que esse novo padrão de tráfego deve se intensificar rapidamente. A expectativa do setor é de que, já no início da próxima década, o volume desse tipo de dado aumente cerca de cinco vezes, e que agentes de inteligência artificial, sistemas que operam de forma autônoma, sem intervenção humana direta a cada comando, sejam responsáveis por um quarto de todo esse novo tráfego. Isso inclui desde assistentes virtuais até dispositivos vestíveis, drones e veículos conectados equipados com IA.

Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson para o Cone Sul da América Latina, destaca que a chamada “IA física”, aplicada a robôs, carros e wearables, deve ampliar ainda mais essa demanda, incluindo o uso doméstico de robótica agêntica. Segundo ele, esse cenário elimina a lógica tradicional de picos e vales de uso, já que os agentes de IA operam de forma contínua, ao longo de todo o dia, exigindo das operadoras um reposicionamento de frequências e a migração de tecnologias mais antigas, como 3G e 4G, para o padrão 5G.

Contexto: onde o Brasil está no mapa da infraestrutura 5G

O desafio ocorre em um momento em que o país ainda está em processo de consolidação da própria rede 5G. Segundo dados da consultoria Teleco, o Brasil soma atualmente 276,4 milhões de assinaturas de telefonia móvel, das quais 23,9% já utilizam a quinta geração, um avanço relevante, mas ainda distante da fatia de 64,3% ocupada pelo 4G. Em termos de cobertura geográfica, o 5G está disponível em 3.040 dos 5.570 municípios brasileiros, enquanto o 4G já alcança a totalidade do território nacional.

Mais crítico ainda é o estágio da tecnologia 5G stand alone (SA), a versão “pura” da rede, que não depende de infraestrutura 4G para funcionar e é considerada essencial para suportar aplicações de IA em alta velocidade e baixa latência. Atualmente, esse modelo representa apenas cerca de 10% de toda a infraestrutura 5G instalada no país.

Andre Gildin, sócio da consultoria RKKG, aponta que os países líderes em preparo de rede para IA já combinam uma arquitetura mais eficiente com integração otimizada entre fibra óptica e provedores de nuvem. No Brasil, um dos principais gargalos identificados pelo estudo da Ookla é a concentração geográfica de data centers em São Paulo, o que gera problemas de latência para usuários em outras regiões, mesmo quando a cobertura de rede é considerada boa, já que o caminho até os servidores de nuvem pode ser longo ou pouco otimizado.

Esse problema de latência já é mensurável: segundo a Ookla, o tempo de resposta das redes brasileiras em horários de pico pode chegar a ser até sete vezes maior, afetando diretamente aplicações sensíveis a atrasos, como assistentes de voz, realidade aumentada, jogos em nuvem, robótica remota e veículos conectados.

Impactos para operadoras, empresas de tecnologia e usuários finais

Para as operadoras de telecomunicações, o cenário exige uma revisão de investimentos que, segundo estimativas da Conexis (associação que reúne as empresas do setor), somam cerca de R$ 36 bilhões neste ano, valor que especialistas apontam como insuficiente diante da velocidade de crescimento da demanda por IA. Mike Dano, analista-chefe de telecomunicações da Ookla, destaca que o principal desafio não é apenas técnico, mas econômico: as operadoras precisarão reverter décadas de infraestrutura desenhada para priorizar o download, ao mesmo tempo em que buscam retorno financeiro sobre os novos investimentos, sem tornar os serviços de IA caros demais para o consumidor final.

Esse equilíbrio já está sendo endereçado por grandes operadoras que atuam no país. A Claro, por meio do CTO André Sarcinelli, afirma estar se posicionando como uma “neocloud”, investindo R$ 1 bilhão na ampliação de sua plataforma de nuvem própria, com foco em aproximar o processamento computacional da borda da rede, estratégia conhecida como edge computing, para reduzir a distância física entre o processamento de dados e o usuário final.

A Vivo, segundo Guilherme Silveira, diretor de Transformação de Redes da empresa, destina cerca de R$ 9 bilhões por ano à expansão de 5G, fibra óptica e modernização de infraestrutura, com foco especial em fortalecer a conectividade com ambientes multicloud e data centers. Já a TIM Brasil, conforme o vice-presidente de Tecnologia Marco Di Costanzo, tem acelerado a modernização de sua rede para garantir tempos de resposta mais rápidos e, principalmente, mais estáveis, um ponto sensível para aplicações de IA em tempo real.

Para empresas que dependem de aplicações de inteligência artificial em suas operações (de e-commerces a fintechs), esses investimentos em infraestrutura têm relação direta com a qualidade da experiência oferecida a seus próprios clientes. Já para o usuário comum, o principal efeito prático tende a ser sentido em momentos de pico de uso, quando a lentidão de resposta pode se tornar mais perceptível em serviços que dependem de IA, como assistentes de voz e ferramentas de geração de conteúdo em tempo real.

O que esperar dos próximos passos na expansão das redes brasileiras

O consenso entre especialistas ouvidos é de que a adaptação das redes brasileiras à nova lógica de tráfego será gradual, acompanhando o ritmo de adoção de ferramentas de IA pelos consumidores e empresas. Marcos Ferrari, presidente executivo da Conexis, classifica a tendência como irreversível, mas pondera que a inteligência artificial ainda é um fenômeno recente, e que a evolução da infraestrutura ocorrerá conforme a demanda efetivamente crescer.

Entre as medidas apontadas como prioritárias pelo setor estão a aceleração da implantação do 5G stand alone, a expansão da infraestrutura de edge computing, com processamento de dados distribuído em servidores menores instalados nas próprias redes das operadoras e em antenas 5G, além da ampliação do espectro de frequências disponível e do adensamento da malha de sites de telecomunicações. Também deve ganhar força a discussão sobre descentralização geográfica de data centers, reduzindo a dependência excessiva da região Sudeste e aproximando fisicamente o processamento de dados de outras regiões do país.

Créditos

Fonte de referência: O Globo

Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.

Assinatura: Redação Brasil Tech News

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