A China reforçou nesta sexta-feira (17) sua estratégia de posicionar a inteligência artificial de código aberto como ferramenta de influência geopolítica. Em discurso na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), em Xangai, o presidente chinês Xi Jinping defendeu que o avanço da tecnologia seja tratado como um esforço coletivo entre nações, e não como corrida isolada liderada por um único país. O evento também marcou a oficialização da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), da qual o Brasil é um dos 29 países fundadores, o que torna o tema especialmente relevante para o mercado brasileiro de tecnologia.
China defende modelo aberto de IA como alternativa às big techs americanas
Durante a cerimônia, Xi Jinping afirmou que o desenvolvimento da inteligência artificial “não deve ser uma apresentação solo de um único país, mas uma sinfonia de colaboração global”. A declaração, embora não cite diretamente os Estados Unidos, é lida por analistas como um recado direto ao principal concorrente da China na corrida tecnológica.
O líder chinês classificou a IA de código aberto (modelo em que o software pode ser acessado, estudado e modificado livremente por desenvolvedores) como uma oportunidade histórica para distribuir os benefícios da tecnologia em escala global. Segundo ele, a ausência desse compartilhamento poderia gerar novas desigualdades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento no acesso a ferramentas de IA.
Na prática, o discurso confirma um movimento que empresas chinesas como DeepSeek, Moonshot e Zhipu já vinham conduzindo: o lançamento de modelos de linguagem abertos que competem diretamente com sistemas proprietários como o ChatGPT, da OpenAI, o Claude, da Anthropic, e o Gemini, do Google. Essa abordagem tem permitido que empresas chinesas ganhem espaço internacional, especialmente entre desenvolvedores e governos que buscam alternativas de menor custo às plataformas ocidentais.
Contexto: a disputa global pela liderança em inteligência artificial
O discurso de Xi acontece em um momento estratégico. A China é amplamente considerada tecnologicamente atrás dos Estados Unidos em inteligência artificial, sobretudo no desenvolvimento de chips avançados para IA, mercado ainda dominado pela Nvidia. Ao mesmo tempo, o país vem reduzindo essa distância de forma acelerada no campo dos modelos de linguagem, especialmente nas versões de código aberto.
Enquanto empresas americanas mantêm seus modelos de ponta como produtos proprietários, monetizando o acesso via assinaturas e APIs, a estratégia chinesa aposta na disseminação gratuita da tecnologia como forma de conquistar usuários, desenvolvedores e governos, principalmente no chamado Sul Global.
Foi nesse contexto que a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO) foi oficialmente criada nesta sexta-feira, um ano após ter sido proposta pelo premiê chinês Li Qiang na edição anterior da conferência. A entidade reúne 29 países fundadores, entre eles Brasil, Rússia, Indonésia, Paquistão, Cazaquistão, Cuba, Venezuela e Nicarágua, com o objetivo declarado de dar a países em desenvolvimento maior peso nas discussões sobre governança global de IA, pauta hoje concentrada principalmente entre Estados Unidos, China e União Europeia.
Como parte das medidas anunciadas, a China informou que oferecerá 5 mil vagas em programas de treinamento e capacitação em IA para países em desenvolvimento ao longo dos próximos cinco anos, além da criação de centros de cooperação em aplicações de inteligência artificial em parceria com blocos como Asean, União Africana, Liga Árabe, Celac, Organização de Cooperação de Xangai e o Brics, grupo do qual o Brasil faz parte.
Impactos para empresas, profissionais e usuários
Para o mercado brasileiro de tecnologia, a movimentação chinesa tem efeitos práticos em diferentes frentes:
Empresas e startups que desenvolvem produtos baseados em modelos de linguagem ganham acesso a alternativas de código aberto potencialmente mais baratas, reduzindo a dependência exclusiva de fornecedores americanos e ampliando a concorrência no setor de infraestrutura de IA.
Profissionais de tecnologia, especialmente desenvolvedores e cientistas de dados, tendem a se beneficiar da multiplicação de modelos abertos disponíveis para testes, ajuste fino (fine-tuning) e aplicações comerciais, o que pode acelerar a adoção de IA em setores como varejo, saúde e serviços financeiros.
Governos e instituições públicas, com a entrada do Brasil como membro fundador da WAICO, passam a ter um canal formal adicional para discutir padrões de governança de IA, o que pode influenciar futuras políticas públicas e marcos regulatórios nacionais sobre o tema.
Já para usuários finais, a ampliação da oferta de modelos abertos tende a pressionar preços e ampliar o número de aplicações gratuitas ou de baixo custo disponíveis no mercado, embora questões relacionadas à privacidade de dados e à origem do treinamento desses modelos continuem sendo pontos de atenção.
Vale destacar que empresas americanas já acusaram, em outras ocasiões, companhias chinesas de apropriação indevida de tecnologias no desenvolvimento de seus modelos, um ponto de tensão que deve continuar no centro do debate sobre propriedade intelectual em IA.
Tendências e próximos movimentos no cenário global de IA
A tendência é que a disputa entre modelos abertos e proprietários se intensifique nos próximos meses. Enquanto empresas chinesas seguem investindo em código aberto como estratégia de expansão internacional, companhias americanas devem reforçar o discurso sobre segurança, qualidade e suporte corporativo como diferenciais de seus produtos proprietários.
A consolidação da WAICO também deve ser acompanhada de perto pelo mercado, já que a entidade pode se tornar um fórum relevante para a criação de padrões técnicos e diretrizes éticas alternativos aos discutidos em fóruns liderados por países ocidentais. Para o Brasil, participar como membro fundador pode significar maior protagonismo em decisões futuras sobre regulação internacional de IA.
Outro ponto que deve ganhar repercussão nos próximos dias é a repercussão negativa em torno de um vídeo gerado por inteligência artificial e publicado por um veículo estatal chinês, que retratava as Filipinas de forma discriminatória em meio a tensões diplomáticas na região, episódio que reacende debates sobre o uso responsável de IA generativa em contextos políticos e diplomáticos.
Créditos
Fonte de referência: O Globo
Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.
Assinatura: Redação Brasil Tech News