Os grandes bancos de investimento dos Estados Unidos passaram a tratar a inteligência artificial não apenas como uma tendência tecnológica a ser observada de fora, mas como uma fonte direta e crescente de receita. Operações de captação de recursos, concessão de crédito e assessoria financeira ligadas à expansão da infraestrutura de IA já somam dezenas de bilhões de dólares em 2026, segundo informações divulgadas pela agência Reuters.
O movimento reflete uma mudança de postura no setor financeiro: instituições como Goldman Sachs, Morgan Stanley, Citi e Bank of America vêm ampliando sua exposição a negócios relacionados à construção de data centers, à compra de capacidade computacional e ao financiamento de empresas que sustentam o avanço dos modelos de inteligência artificial. Executivos dessas instituições descrevem o momento como um “superciclo de investimentos”, que pode se estender por vários anos, ainda que parte do mercado questione se as avaliações atuais das empresas de tecnologia são sustentáveis no médio prazo.
Como a expansão da inteligência artificial virou negócio bilionário
A demanda por mais capacidade de processamento tem gerado operações financeiras de grande porte. Entre os exemplos mais recentes está a listagem de American Depositary Receipts (ADRs) da fabricante de chips sul-coreana SK Hynix, avaliada em cerca de US$ 26,5 bilhões (aproximadamente R$ 143 bilhões). Outro caso emblemático é o IPO da SpaceX, que movimentou algo próximo a US$ 86 bilhões (cerca de R$ 464 bilhões). Ambos os casos foram citados pela Reuters como exemplos do apetite do mercado por ativos ligados à cadeia de infraestrutura tecnológica.
Além de participar diretamente dessas operações de mercado de capitais, os bancos vêm estruturando linhas de crédito específicas para financiar a construção física necessária ao avanço da IA: centros de dados, capacidade energética e equipamentos de processamento em larga escala.
Durante uma teleconferência de resultados recente, o presidente-executivo do Goldman Sachs, David Solomon, afirmou que a construção da infraestrutura de inteligência artificial ainda está em fase inicial, e que esse ciclo deve continuar impulsionando atividades de financiamento e formação de capital nos próximos anos.
Contexto: por que os bancos estão apostando tanto em IA agora
O interesse crescente das instituições financeiras acompanha um período de forte expansão dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial em escala global. Segundo o CEO do Morgan Stanley, Ted Pick, as projeções de gastos com data centers foram revisadas para cima diversas vezes ao longo dos últimos meses:
- O investimento em 2028 pode chegar a US$ 1,5 trilhão (R$ 8,1 trilhões);
- Para 2027, a projeção passou de US$ 700 bilhões (R$ 3,8 trilhões) para US$ 1,3 trilhão (R$ 7 trilhões);
- No acumulado de vários anos, o Morgan Stanley projeta que os gastos ligados à IA podem somar até US$ 10 trilhões (R$ 54 trilhões);
- A estimativa para 2026 subiu de US$ 575 bilhões (cerca de R$ 3,1 trilhões) para aproximadamente US$ 850 bilhões (R$ 4,6 trilhões).
Esse cenário ocorre em meio a um mercado dividido. Em julho, ações de empresas de tecnologia, sobretudo fabricantes de semicondutores, enfrentaram pressão de investidores preocupados com avaliações consideradas elevadas. Ainda assim, o volume de capital direcionado à infraestrutura de IA continua em trajetória de alta, o que indica que, para os bancos, o ritmo de expansão segue superando as dúvidas sobre uma eventual bolha de investimentos.
Impactos para bancos, empresas de tecnologia e profissionais do setor
A movimentação bilionária em torno da IA já reconfigura a atuação de diferentes players do mercado financeiro e de tecnologia:
Para os bancos de investimento, a infraestrutura de IA se tornou uma nova linha de negócios recorrente, com potencial de gerar receita por meio de assessoria em fusões e aquisições, estruturação de dívida e coordenação de ofertas públicas. A CEO do Citi, Jane Fraser, apontou que o tema domina boa parte das conversas estratégicas do banco atualmente, muito em função do aumento simultâneo de gastos com tecnologia, data centers, energia e defesa.
Para empresas de inteligência artificial, o acesso a crédito facilitado por grandes instituições amplia a capacidade de financiar operações intensivas em capital. Um exemplo é a linha de crédito de US$ 520 milhões (cerca de R$ 2,8 bilhões) concedida pelo Bank of America à OpenAI. Segundo a própria instituição, o banco já ajudou empresas ligadas à IA a captar quase US$ 500 bilhões (aproximadamente R$ 2,7 trilhões) desde 2025.
Para setores indiretamente ligados à cadeia de infraestrutura, como construção civil especializada e fornecimento de energia, o crescimento dos data centers também representa uma fonte adicional de demanda. O diretor financeiro do JPMorgan Chase, Jeremy Barnum, destacou que a expansão física dos centros de processamento movimenta cadeias produtivas que vão além do setor de tecnologia propriamente dito.
Para investidores e analistas de mercado, o momento exige equilíbrio entre aproveitar o crescimento do setor e monitorar riscos de sobrevalorização. Segundo Stephen Biggar, diretor de pesquisa de serviços financeiros da Argus Research, o ciclo de investimentos impulsionado pela IA já beneficia emissões de ações, operações de fusões e aquisições e financiamentos de dívida de forma ampla no mercado.
Tendências e próximos movimentos do mercado de IA em Wall Street
A expectativa entre analistas é que o volume de operações financeiras ligadas à inteligência artificial continue crescendo nos próximos trimestres, à medida que empresas de tecnologia buscam formas alternativas de financiamento para sustentar projetos de infraestrutura cada vez mais caros. Isso deve incluir:
- Ampliação de linhas de crédito específicas para construção de data centers e aquisição de capacidade energética;
- Maior participação de bancos em ofertas públicas iniciais (IPOs) de empresas ligadas direta ou indiretamente à cadeia de IA;
- Monitoramento mais próximo, por parte de reguladores e analistas, sobre eventuais riscos sistêmicos associados à concentração de capital nesse setor;
- Novas rodadas de captação por parte de empresas de IA, incluindo companhias fora dos Estados Unidos, como observado em movimentos recentes no mercado asiático.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre a sustentabilidade das avaliações das empresas de tecnologia deve permanecer no radar do mercado. O ritmo acelerado de expansão convive com incertezas sobre até quando os investidores estarão dispostos a sustentar múltiplos elevados diante de um cenário de gastos crescentes e retorno ainda incerto em alguns segmentos.
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Fonte de referência: Olhar Digital
Matéria produzida pela Redação Brasil Tech News com base em informações publicadas originalmente pelo veículo citado.
Assinatura: Redação Brasil Tech News